Café: entenda como inverno atípico e chuvoso em julho pode impactar exportação e qualidade da bebida

  • 04/08/2026
(Foto: Reprodução)
Café robusta Globo Rural/Tv Globo As chuvas atípicas registradas em julho nas principais regiões produtoras de café arábica no Brasil — como o interior paulista e o Sul de Minas — ameaçam a qualidade dos grãos e o padrão da bebida, acendendo o alerta para as exportações do setor. O cenário é desafiador porque cerca de 30% da safra brasileira 2026/2027 ainda não tinha sido colhida e ficou sujeita aos danos do clima. A análise consta no boletim mais recente do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), de Piracicaba (SP). Além de atrasar os trabalhos no campo, o excesso de água reflete diretamente na avaliação sensorial da bebida — um dos critérios mais rigorosos de classificação do café e valor no mercado estrangeiro. 📲 Siga o g1 Piracicaba no Instagram Para avaliar os desdobramentos do clima tanto na lavoura quanto na xícara do consumidor, o g1 ouviu especialistas da área acadêmica e do mercado de cafés especiais. Veja na reportagem, abaixo. Lavoura de café arábica no Sul de Minas Gerais Lavoura de café arábica no Sul de Minas Gerais – Crédito: Divulgação As precipitações se concentraram principalmente nos últimos dias do mês, momento em que a colheita se encaminha para o fim e a varrição passa a ser a atividade de maior demanda. "Tradicionalmente, a colheita do café ocorre no inverno, período mais seco. Neste ano, tivemos 'um verão no inverno', com muita chuva. Além de desacelerar o serviço no campo, a umidade afeta o processo de secagem e prejudica o produto final", explica Renato Garcia Ribeiro, pesquisador responsável pela área de café no Cepea. De acordo com o Cepea, embora não seja possível mensurar os prejuízos em volume absoluto neste momento, os grãos que ficaram expostos no chão ou no pé sofreram perda direta de qualidade. "Esta safra era muito aguardada em termos de volume, vindo de anos com problemas climáticos. Havia a expectativa de uma safra recorde, e o produtor receava que isso pressionasse os preços", complementa Ribeiro. Café tipo robusta Arquivo Pessoal Qualidade da bebida x exportação Segundo o pesquisador, o impacto real só será dimensionado à medida que os lotes forem provados, beneficiados e comercializados — processo que pode levar de dois a três meses. “Nesse período, o tamanho do grão do café já está formado, não tem muito o que mudar. Mas, [o cenário] prejudica principalmente a bebida, que é um dos critérios nas fases de classificação do café. Quanto melhor a bebida - um café que secou mais bem - mais valorizado ele é. É o principal produto nosso de exportação”, explica o pesquisador. Leia mais: Projeção de safra com colheita recorde pressiona preço médio do arábica Inverno atípico e chuvoso em julho pode impactar exportação do café, preços e qualidade da bebida Claudia Assencio/g1 Café com gosto de remédio? O barista Júnior Damada, especialista em cafés de qualidade e mestre de torra, explica o que muda no sabor e no aroma do café na xícara quando um lote do produto sofreu com excesso de chuva e fermentação indesejada na secagem dos grãos. Um café influenciado com umidade pode apresentar sabor diferente do padrão da bediba. “As características sensoriais que geralmente são encontradas nas bebidas feitas com lotes que sofreram algum tipo de contaminação ou tiveram algum descuido no processamento nos revelam nuances sensoriais que nos remetem a medicamentos, sabores acético, adstringentes que ‘amarram’ a boca”, exemplifica. Júnior Damada é especialista em Cafés de Qualidade e Mestre de Torra da Breathe Co em Piracicaba Adrian Dona/Júnior Damada Classificação Para que um lote seja classificado como café especial, ele precisa ser totalmente isento de defeitos e apresentar doçura e complexidade sensorial. Lotes afetados pela umidade do solo ou colhidos na varrição dificilmente atingem esse patamar, sendo rebaixados para categorias como gourmet, superior ou tradicional. "Caso não se enquadre neste critério, não será classificado como especial. Poderá ser classificado com outros adjetivos que contemplam as características do respectivo lote, como Gourmet, Superior ou Tradicional", detalha. Segundo o especialista, o consumidor comum pode identificar, ao tomar um café em casa ou na rua, se aquele grão foi prejudicado por problemas de umidade na colheita. "Tudo começa pela percepção sensorial, bebeu e não gostou ou notou diferença em relação ao anterior, o produto sofreu alguma alteração durante o percurso, ou ainda no seu desenvolvimento na lavoura, mas todos os envolvidos no segmento, trabalham para que esse diferença de sabor não traga impacto negativo ao mercado de forma geral", conclui. Barista Júnior Damada, de Piracicaba (SP), explica sobre os critérios que faz um café ser considerado especial e como as condições climáticas podem afetar a qualidade da bebida Adrian Dona/Júnior Damada Densidade e tamanho A densidade e o tamanho dos grãos mudam quando café passa por variações climáticas inadequadas à cultura. Isso exige ajuste de receitas de preparo na cafeteria. Damada pontua que se grãos que sofreram com a umidade no terreiro ou no café de varrição, eles se comportam de forma diferente na hora da moagem e da extração na máquina, de espresso ou no coado. "Desequilíbrios climáticos sempre afetam de alguma forma, tamanho dos grãos, o enchimento do frutos, os nutrientes do solo, a densidade. Cada safra tem suas particularidades e o mercado sempre encontra a melhor forma de utilizar os frutos colhidos. Tanto as torrefações artesanais, as industriais, as cafeterias e o consumidor em casa, encontra uma forma de fazer a bebida ser a melhor possível na xícara", pondera. Conheça os fatores que influenciam o preço do café para o consumidor Veja mais notícias sobre a região no g1 Piracicaba

FONTE: https://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2026/08/04/cafe-entenda-como-inverno-atipico-e-chuvoso-em-julho-pode-impactar-exportacao-precos-e-qualidade-da-bebida.ghtml


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