Governo suspende temporariamente importação de cacau da Costa do Marfim
24/02/2026
(Foto: Reprodução) De onde vem o que eu como: chocolate
O Ministério da Agricultura decidiu suspender, de forma imediata e temporária, as importações de amêndoas fermentadas e secas de cacau da Costa do Marfim. A decisão foi publicada nesta terça-feira (24), no Diário Oficial da União.
O governo federal afirma que a suspensão foi adotada após uma avaliação técnica que apontou risco fitossanitário nas cargas destinadas ao Brasil — ou seja, a possibilidade de entrada de pragas e doenças que não existem no país por meio do cacau importado.
Segundo o Ministério da Agricultura, há um fluxo intenso de grãos de cacau provenientes de países vizinhos, como Gana, Guiné e Libéria, para a Costa do Marfim.
Esse movimento, diz o governo, pode levar à mistura de amêndoas de diferentes origens antes da exportação, prática conhecida como triangulação comercial.
Parte desses países, como Libéria e Guiné, não possui autorização para exportar o produto ao Brasil, o que aumenta o risco de contaminação das cargas enviadas ao país, afirma o governo.
No ato publicado no Diário Oficial, o governo determina que as secretarias de Relações Internacionais e de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura investiguem possíveis casos de triangulação.
A suspensão das importações será mantida até que o governo da Costa do Marfim apresente manifestação formal e garantias de que os envios destinados ao Brasil não contenham cacau produzido em países sem autorização sanitária.
➡️O Brasil é um grande produtor de cacau e a produção nacional consegue atender cerca de 80% da demanda interna. Outros 20% são importados.
Em 2025, por exemplo, a produção brasileira de cacau alcançou 186.137 toneladas, enquantos as importações chegaram a 42.199 toneladas, segundo dados levantados pelo analista Lucca Bezzon, da StoneX Brasil.
Do total do volume importado, 81% teve origem na Costa do Marfim, o maior produtor mundial de cacau.
Pressão do setor e reações à suspensão
Segundo uma nota publicada pela Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb), a decisão do governo foi baseada em uma nova análise de risco fitossanitário realizada pela missão técnica brasileira na Costa Marfim, entre os dias 1 e 14 de fevereiro, cujo relatório deve ser divulgado até o final desta semana.
A medida também acontece depois de uma agenda articulada pelo governador Helder Barbalho, do Pará, maior estado produtor de cacau do país.
Ele se reuniu com o Ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, e demais autoridades para defender interesses dos produtores de cacau paraenses e brasileiros.
“Isso foi uma reivindicação dos produtores rurais. [....] Isso vai permitir com que os produtos nacionais sejam valorizados, com que a produção de cacau no Brasil possa melhorar o preço e possa fortalecer aqueles que produzem”, destacou o governador.
Produtores de cacau protestam contra baixos preços na BA
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) disse que a suspensão da importação "é fundamental para proteger a produção nacional do risco de ingresso de pragas e doenças no país".
“A suspensão da importação de amêndoas de cacau da Costa do Marfim é medida cautelar de extrema relevância. Acreditamos na competência técnica da Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa para que, com base em critérios científicos, tome a decisão mais assertiva para a proteção do cacau nacional”, afirmou o diretor técnico adjunto da CNA, Maciel Silva.
Já a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) disse que recebeu a notícia com preocupação.
"A AIPC confia no corpo técnico do Ministério da Agricultura e Pecuária e reafirma que decisões dessa magnitude devem estar ancoradas exclusivamente em critérios técnicos, com base em evidências objetivas e avaliações de risco consistentes."
"Confiamos igualmente no governo da República da Costa do Marfim, parceiro estratégico do Brasil no comércio internacional de cacau, para que possa apresentar os esclarecimentos e garantias necessários quanto à rastreabilidade e aos controles adotados para impedir a triangulação de amêndoas provenientes de países não autorizados."
Imagem de amêndoas de cacau.
Claudia Assencio/g1